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Os Ritos de Passagens e a Arte
Domingo, Jan. 22, 2012

As artes de uma maneira geral, a literatura, o teatro, a música, desde o inicio de produção cultural da sociedade têm sido uma pedra angular no auxilio da compreensão da alma humana.
Desde os mais antigos manuscritos, dos ensinamentos de transmissão oral e expressões culturais, ate as produções mais modernas, a humanidade tem referenciado seus mitos e confirmando seus ritos através da produção cultural.
Tem sido este material um manancial inesgotável de reflexões e crescimento, auxiliando o homem na construção da sua subjetividade, seu desenvolvimento humano, na construção do seu conhecimento.
O cinema, tido como a sétima arte, é uma indústria cultural e de entretenimento que muito tem contribuído para esta construção; às vezes sob a forma de dramas, tragédias, outras de forma leve e lúdica, nos remete ao encontro das perguntas fundamentais que rondam a consciência humana.
Qual o sentido da vida, qual o seu significado, de onde viemos e para onde vamos, que sentido têm as relações, os objetos. O que são valores, quais os valores fundamentais.
Qual enfim o melhor caminho para o desenvolvimento da consciência?
O cinema tem nos presenteado com estas possibilidades, desde os épicos gregos, passando pelas tragédias e narrativas dos seus deuses, e a retratação na tela dos mitos judaicos, entre outros.
Hoje, com uma linguagem visualmente mais moderna, utilizando-se de todos os recursos que a moderna tecnologia dispõe, ainda contem no seu bojo e no seu cerne, processos arquetípicos que falam substancialmente e profundamente aos grandes temas que permeiam o questionamento do homem em torno de si mesmo e do seu destino.
Há um filme, já na sua terceira versão, que provoca uma reflexão neste sentido. Trata-se da A Era do Gelo 3, cuja aventura nos provoca e remete a pensarmos sobre os ritos de passagem. e o processo de individuação, sob a ótica da psicologia analítica.
Uma aventura da preguiça Sid, no filme A Era do Gelo 3, nos coloca em contato com grandes questões da existência humana, o processo continuo de vir-a-ser do homem.
Com efeito, o caminho percorrido por Sid, nos remete a questões que envolvem o processo de individuação ao qual todos somos sujeitos.
A preguiça Sid, seqüestra alguns ovos de dinossauro e forma sua própria família adotiva. Ocorre que a mamãe dinossauro resolve reclamar seus filhotes,e, é evidente que a correlação de forças entre eles é descomunal. A mamãe leva seus filhos embora.
Os passos seguintes revelam a grande empreitada, emblematicamente, que esta mamãe dinossauro vive nas profundezas da terra e é para lá que ela retorna.
Sid não se conforma com a perda, lança-se à tarefa heróica de penetrar no interior da terra, enfrentar forças desconhecidas e gigantescas para recuperar algo que fez constelar no seu ser aspectos adormecidos.
Como nunca estamos sós na nossa jornada, nunca somos habitados apenas pelo complexo do ego, a turma de Sid lança-se a seu socorro, para auxiliá-lo nesta jornada. Os perigos são imensos e a cada instante uma novidade. Quanto mais se percorre o caminho em direção ao centro da terra, mais surpresas e perigos. Animais surpreendentes, plantas assassinas, grandes regiões escuras e de sombras se revelam.
Em determinado momento, surge Buck, um morador das profundezas, uma agitada Doninha de um olho só, herói e vilão ao mesmo tempo, caçadora de dinossauros. A junção destas forças internas e externas, associa o desejo de Sid de recuperar os filhos adotivos à sabedoria e o conhecimento de Buck dos caminhos interiores, o que produz uma aventura eletrizante.
Todo o grupo é envolvido nesta luta heróica, estes personagens que possuem um determinado vínculo que se aprofunda e ganham novos contornos. Uma luta comum, ideais comuns. Descobrir novos caminhos que os levem de novo para a superfície. Com efeito, ninguém passa por um processo deste e volta incólume. Todos os personagens mudaram algo em suas personalidades.
Durante o desenrolar do enredo, com o desencadear dos acontecimentos, alguns elementos estruturantes da psique começam a se revelar nesta narrativa e aventura. Que podem ser pensados em termos de uma identificação com aspectos propostos pela psicologia analítica, tais como; a identificação com o complexo materno, a constelação de complexos autônomos, a viagem pelo inconsciente e o contato com a sombra, a integração destes aspectos sombrios.
Esta aventura vivida por Sid nos coloca diante de um provocante processo que se faz continuamente, penetrar nos interiores, fazer de alguma forma a jornada do herói, integrar, harmonizar e começar de novo.
Para percorrermos estes caminhos precisamos de ferramentas adequadas.
Os ritos de passagem surgem como uma ponte entre o consciente e o inconsciente, e a sua vivencia torna-se fundamental para o crescimento humano.
Olhando para o relato desta aventura, questiono-me, de que forma esta sociedade que aí esta pode responder as questões cruciais da existência. Onde estão nossos referenciais, como delinear e apreender nossos papeis, quais as ferramentas que dispomos, cadê os nossos ritos de passagem?
A pós-modernidade aparentemente introduz a noção de certa despersonalização do homem, traz consigo, de alguma forma a destruição dos ritos de passagem mais antigos, mas não apresenta os novos.
O rito faz referencia a uma ação realizada em determinado tempo e espaço, diferente das ações do cotidiano, distinta do comportamento comum.
O que o rito de passagem e as próprias marcas apontam a importância do movimento da sociedade, de um eterno continuum. Na qualidade de passagem, sugerem que há diferentes estados, momentos, etapas a serem cumpridas, conquistas a serem alcançadas.
Fase e ritual são efêmeros, transitórios e passageiros, sua duração não é tão importante quanto os efeitos que produzem ao longo do tempo, mas as marcas que os ritos produzem devem ser duradouras e indeléveis.
Apesar da importância crucial dos ritos de passagens e seu aspectos simbólicos, nossa cultura perdeu o mapa mítico que ajuda a localizar uma pessoa num contexto mais amplo, vivemos uma sociedade desritualizada, na qual os indivíduos estão hoje a deriva, sem modelos, sem orientação, e sem ajuda para atravessar os vários estágios da vida.
Vivemos numa sociedade globalizada, que de certa forma despersonaliza e massifica o individuo, privilegiando as crenças no materialismo, no hedonismo e no narcisismo.
Esta sociedade globalizada que seqüestrou a subjetividade e a individualidade do individuo, massificando as idéias e comportamentos ditados pelo poder da mídia. O mundo alienado das aparências, onde ser único, individual é um passaporte para a exclusão. Á sociedade de ideologias fabricadas, o que menos interessa é a transformação interna do individuo.
O homem globalizado é também o homem que se afasta de sua essência, de sua identidade, de seu lugar, dos marcadores constitutivos de sua individualidade. Come sanduíche americano, bebe vinho chileno, seus brinquedos são chineses, a batata frita é inglesa, suas roupas são de tecido chinês, o perfume é francês, etc.
Neste frenesi existencial, nosso homem, senta-se na diante de sua televisão japonesa ou americana e impregna-se das tragédias diárias, do cotidiano globalizante e alienador.
As tragédias e as comedias se sucedem, num pendulo ora dionisíaco, ora apolíneo, ocupando os neurônios já destreinados do pensar, aqui, diante desta virtualidade da vida e da existência, nos é dado o direito alienante de não ser.
Não “ser” por si só já é uma impossibilidade, mas não se reconhecer como “ser” destinado à inquietação interior, ocupado também com sua interioridade, com o seu alargamento interno, com a amplitude da existência, com o explorar das regiões abissais dos oceanos internos humanos, é condição para ser considerado produtivo nestes tempos. Há um esquecimento do trajeto que este homem fez ao longo da historia.
Olho no relógio preencha os espaços na agenda, produza e ganhe dinheiro, consuma e seja feliz. Não sofra. Para os infelizes; carro novo; para as frustradas; salão de beleza, se os encantos do consumismo não produzirem seus efeitos esperados, fluoxetina neles.
Aparentemente condenados a viver nas sombras da caverna, em que os sonhos se transformam em silhuetas mal definidas, deformando e produzindo uma outra perspectiva, um outro ser, um outro homem, quase híbrido, não se deve refletir sobre o “ser” homem e seu destino, só é permitido ser medíocre, sem rito, sem mitos.
Como se o trajeto percorrido pela humanidade, todo ele, não tivesse sido forjado pelos deuses.
Nossa cultura perdeu as coordenadas de longitude e latitude de sua alma distanciando-se dos mitos, evitando as crises, crises que depuram, selecionam, elegem e sedimenta a evolução humana.
O homem vive um constante movimento, de síntese e de fragmentação. Desde que o ser é ser, há um constante fluxo e refluxo desta tensão, a fragmentação desorienta, a síntese depura e organiza, quando isto se institucionaliza, perde-se o sentido e é necessária nova fragmentação. Caos e cosmos.
Nosso homem destes tempos vive cartesianamente, a individualidade se estilhaça na especificidade, produzindo um cuidado com a máquina e suas compartimentações.
O poder do capital, não vê o homem, vê mercado, vê o sujeito consumidor.
A poder intelectual, não objetiva a construção de conhecimento, instrumentaliza o técnico. O sujeito robô, programável e feliz.
O poder religioso não privilegia a construção do dito reino no agora, arrecada mão de obra grátis, contabiliza dizimo e fieis, coleciona catedrais. O sujeito da promessa, a felicidade esta atrás da porta, que ninguém quer abrir.
O medico diante do paciente, não apreende do paciente, vê um braço a ser colado, um fígado a ser transplantado, um coração a ser safenado. È o sujeito esquartejado.
Que vê e ouve o homem na sua totalidade?
Quem ouve o sujeito perguntar-se, quem sou eu? Para aonde ou, que sentido tem ser humano, qual o significado da existência?
Quem ouve o sujeito, que frustrado pela impossibilidade de alcançar as promessas de felicidade perpretadas por esta ideologia consumista pergunta-se, aonde falhei? O que fiz de errado? Qual a minha culpa?
Não trabalhei o suficiente? Não estudei o suficiente? Não tenho fé o bastante.
Neste olhar para o exterior, onde tantos aparentemente são felizes, nosso homem, diz conformado e adestrado, por minha culpa, por minha máxima culpa
Paralisante e limitadora, a culpa remete o sujeito à necessidade de compensação,
Este sentimento de menos valia que acomete este homem desritualizado, faz-se acompanhar dos fluxos e refluxos de energia, sentindo e ressentindo, sentimento construtor de neuroses e doenças psicossomáticas.
Este homem carece de ser olhado na sua totalidade, para poder compreender-se nesta sensação de incompletude, viver suas forças opostas, e trilhar o caminho da individuação.
A insaciabilidade que acompanha o ser homem é condição para a sua saúde mental e espiritual, é mola, é arco, é tensão.
É ela que justifica a sua supremacia no desenrolar do processo evolutivo.
Este olhar, despecaminado, pode sugerir a percepção de um Deus que tem o homem criatura, em processo, na identificação com o criador. O eixo ego-Self, desenvolve-se no sentido de permitir ao homem, contato com as suas mais profundas camadas.
O símbolo vem executar este papel de promover este desenvolvimento do eixo ego-Self, bebendo dos significado dos mitos que podem nos levar até o fundo de nossas reservas psíquicas, e também da humanidade, os ritos de passagem garantem o processo de evolução e amadurecimento, nas varias etapas da existência.
A preguiça Sid e seus companheiros de jornada nos sugerem alguns caminhos; a busca pelos ideais, mesmo que sejam emprestados, tem a coragem de penetrar no nosso mundo interior, mas ter a humildade de contar com nossos personagens internos, reconhecer e integrar os aspectos sombrios, personificados na doninha Buck, saber abandonar as velha persona ou roupas como poetiza Fernando pessoa:
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. Fernando Pessoa
Jeferson Carvalho - "Jefão"
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